sexta-feira, setembro 03, 2010

Capítulo 4 - Sexto Sentido

   Já era noite, muita neve e vento. A mãe de Julie a deixara uma casa enorme como herança. Enquanto Dylan esperava Julie tomar banho, ficou andando pela sala de visitas, observando os detalhes. Ainda muito curioso, ele começou a entrar nos cômodos da casa, até que chegou num quarto imenso e esbugalhou os olhos de forma até que assustadora. Claro, havia um piano ali, branco e reluzente. Óbvio que Dylan não pode conter-se, sentou-se, respirou fundo e começou a tocar com muito sentimento. Quando ele está tocando piano, o tempo passa sem que ele perceba. Dylan é capaz de passar mais de um dia tocando piano sem parar. Enfim, ele parou de tocar, pois ouvira alguém correndo pelo corredor em direção ao quarto em que estava, mas era apenas Julie, com um roupão. Ela estava assustada com o que escutara do banheiro. Dylan logo disse:
     _ Desculpa. Acho que eu não deveria ter encostado no piano, ou sequer ter saído da sala. Me desculpa.
Julie começou a rir incessantemente, e com uma face de surpresa, indagou:
    _ Como você fez isso? Inacreditável! Nunca ouvi algo tão bonito em toda a minha vida. Desde quando você toca piano? Você que compôs isso?
 Inúmeras perguntas surgiram de Julie, e Dylan sem problema algum, respondeu a todas. Julie pediu a Dylan para que fosse à jantar com ela, e depois voltasse ao quarto para mostrar várias de suas composições a ela. Dylan aceitou, não dava para saber qual deles estava mais empolgado com tudo aquilo. Enquanto jantavam, Julie explicou que o piano foi um presente de sua mãe, e que ela tocara o instrumento apenas em momentos de muita tristeza e decepção, mas que não era nada de mais, disse que nem sabia tocar muito. Ótimo, terminaram de jantar e foram ao quarto de Julie, sim, era lá que o piano estava. Julie mal esperou Dylan se ajeitar e logo pediu, sorrindo:
    _ Toca suas composiçõs, quero ouvir todas. Ah, e me conta o que você sente quando compõe. Desculpa, sou super curiosa.
    Dylan disse que ela não precisava se desculpar, pois ele era curioso também. O rapaz começou a tocar uma de suas primeiras composições, que ele compusera ainda no orfanato. Julie simplesmente adorou a composição, e foi pedindo mais e mais. Ela conseguiu fazer com que Dylan mostrasse quase todas suas composições já feitas, e explicasse o motivo de cada uma. Mas Dylan sem coragem, não mostrou a que ele tinha feito para ela, no restaurante. Sim, o rapaz tinha o dom, ele conseguia visualizar todas as notas em sua cabeça, mesmo sem tocá-las, algo realmente surpreendente.
Foi quando Julie disse:
   _ Acho bom ir dormir agora, já está tarde demais. E amanhã eu tenho aula cedo. Eu não te falei, mas faço faculdade de Psicologia.
 Que Dylan sentiu a necessidade mostrar a composição a ela:
   _ Que demais isso. Eu quero muito fazer ir para uma faculdade. É está tarde mesmo, mas eu ainda não te mostrei minha última composição. Posso mostrar agora?
   _ Nossa, claro! Você havia dito que tinha mostrado todas, não? Quando você compôs essa? – Disse Julie.
Dylan explicou seu dom de compor sem precisar ter um piano por perto, e confessou que compôs no exato momento em que observou Julie chorando no restaurante. Confessou também que estava nervoso:
   _ Bom, saiba que eu ainda não toquei essa última composição, e estou muito nervoso! Mas acho tudo vai sair bem. Espero!
    Então o rapaz começou a tocar a composição com todo seu coração, sua alma. Julie começou a chorar e não tinha palavras para expressar o que estava sentindo naquele instante. Dylan nem percebeu o choro da garota e continuou tocando, e só depois de ter terminado que ele viu aqueles belos olhos cheios de lágrimas. Julie conseguiu perguntar apenas uma coisa:
   _ Você diz que sente algo antes de compor, me diz o que você sentiu para poder compor isso. Não minta, por favor.
    Dylan com seu autismo, desviou os olhos de Julie e ficou paralisado diante do piano, da mesma maneira que ficara quando conhecera o piano no orfanato. Julie ainda chorando, estava esperando pelo menos, uma palavra sair da boca de Dylan. E demorou muito, até que ele saiu daquele estado catatônico e aprofundou o olhar nos lábios trêmulos de Julie:
   _ Já senti muito nessa vida, sentimentos que ninguém mas foi capaz de sentir. Mas quando eu te vi naquele restaurante, foi como se tudo o que eu já havia sentido, fosse normal. Basta olhar para alguém para que possamos enxergar, basta tocar alguém para que possamos sentir, e assim funciona todos os sentidos. Descobri no restaurante, que há em mim o sexto sentido, é meu coração. Até agora eu não sei o que dizer. O que eu estou sentindo por você é algo inexplicável. Amor é muito pouco pra expressar tudo isso. Me desculpa, eu sei que mal nos conhecemos, e acredite, eu nunca diria isso para alguém, além de você. Eu sou um pouco autista, tenho problemas para me relacionar, para me expressar. Mas tenho certeza que mesmo uma pessoa ‘normal’ não seria capaz de expressar o sexto sentido. Acho melhor eu procurar um hotel, estou vendo que você não para de chorar, você está passando por esse momento difícil, e eu aqui falando coisas sem sentido.
   Julie ainda estava chorando. Ela estava chorando demais, como nunca havia chorado em toda sua vida, nem sequer na morte de sua própria mãe. Dylan estava super assustado, não sabia se abraçava ela ou se saia do quarto e ia embora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário