segunda-feira, setembro 13, 2010

Capítulo 8 - O Reencontro

  Dylan respirou fundo, fechou os olhos e começou a tocar “Julie”. Foram os sete minutos mais intensos que o rapaz vivera em toda a vida. Ao fim, a plateia aplaudiu com unanimidade, de maneira que o clima ficasse muito mais leve. Depois do pianista ter encantado a todos com “Julie”, a orquestra começou a tocar as composições de Mozart e Beethoven. A noite terminou num piscar de olhos, e Dylan não saiu da frente do piano. As luzes que estavam acesas, iluminavam a grande multidão que estava saindo da ópera, e lá está Dylan observando tudo e todos.
   Não, não aconteceu o que o pobre Dylan estava esperando. Pois é, a Julie não apareceu, e nem sequer mostrou-se entre a multidão. Mas por alguma razão sem sentido até então, Dylan não estava decepcionado ou sequer confuso. Ele estava sentindo algo muito bom, como se tivesse cumprido o dever. Após ter observado todos saírem da ópera, ele fechou as portas e começou a tocar “Julie” novamente. Chorou, e depois sorriu. Tentou gritar, mas calou-se. Foram outros sete minutos intensos em sua vida, e que fizeram Dylan perceber que o que ele mais precisava era um pouco de ar fresco, era ir ao castelo do penhasco.
  O rapaz foi caminhando até o castelo, chegando lá apenas ao amanhecer.  De longe ele avistou uma pessoa bem na beirada do penhasco, sentada e imóvel. O vento estava forte, e Dylan estava cansado, muito cansado. Aproximou-se daquela pessoa que estava de cabeça baixa, vestida em um sobretudo, e usando uma  touca enorme. Aproximou-se dela sorrindo, pois lembrara do sonho que tivera com Julie naquele mesmo lugar. Então sentou-se ao lado daquela pessoa e disse:
  _ É muito estranha essa sensação! Talvez eu esteja sonhando, mas só terei certeza quando ver sua face.
  Aquela pessoa suspirando disse:
  _ Por alguma razão, meu coração disse que me encontrarias, onde quer que eu fosse. Parabéns, Dylan! Mas meu coração esqueceu de dizer que você me seguiria até aqui.
  Naquele instante, Dylan começou a rir descontroladamente. Ele estava feliz, calmo e cansado. Quando conseguiu parar de rir, ele disse:
  _ Que legal! Eu sabia que era um sonho! Só não achei que fosse possível sonhar contigo pela segunda vez no mesmo lugar. Sabe, Julie... Quando sonhei contigo aqui, na primeira vez, eu fiquei triste demais por ter acordado antes de poder te abraçar e me desculpar por ter feito aquilo contigo. Mas houve a segunda vez, e estou feliz por isso! Só que mesmo sendo sonho, eu vou respeitar você... Só vou te abraçar se você quiser! Mas quero dizer que estou completamente arrependido de ter deixado você sozinha naquele noite. Me perdoe, por favor!?
  Julie ergueu a cabeça e olhou bem nos olhos de Dylan, dizendo:
  _ Calma! Você disse que já sonhou comigo nesse mesmo lugar? Como assim? Isso aqui não é um sonho!
  Julie deu um tapa no braço de Dylan, e foi aí que o rapaz ficou apavorado por saber que não estava sonhando. Ele não quis saber de mais nada, apenas abraçou Julie. Após o longo abraço, Dylan explicou que havia sonhado com ela ali no penhasco dois dias antes, e que não havia seguido ela. Foi uma conversa muito demorada. Após ter explicado tudo, Dylan pediu novamente para que Julie o perdoasse. O clima estava pesado, e Dylan esperava a resposta que o permitira dizer tudo o que estava sentindo.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Capítulo 7 - A Decisão

  Naquele momento a vida de Dylan estava prestes a mudar. Mas nunca deve-se pensar que mudança significa que algo positivo irá acontecer em consequência da mesma. Mas enfim, Dylan respondeu a pergunta de Edgar:
   _ Decidi que vou com o senhor, pois acho que é hora de tentar algo novo. Pensei muito no que o senhor falou, e percebi que eu estava errado. Eu jamais irei deixar que a falta de esperança me corrompa novamente.
  Edgar ficou muito contente, e explicou como seria a viagem e tudo mais. Foi necessária uma semana para que Dylan já estivesse em Cork para tomar conta dos negócios referentes à admissão dos músicos para a orquestra. Tudo o que ele precisava fazer, era conseguir encontrar todos os músicos necessários num prazo de um mês.
  Dylan recebera ordens de Edgar, para que não trabalhasse demais, e que dedicasse um bom tempo do seu dia para conhecer as belas paisagens de Cork. Mas Dylan, como estava super empolgado com o negócio da ópera, trabalhou igual um louco, e conseguiu os músicos em duas semanas. Edgar, super satisfeito, pagou a estadia de Dylan num hotel cinco estrelas, para que o rapaz pudesse descansar e aproveitar as últimas duas semanas de folga que antecediam uma longa jornada de trabalho na ópera.
  Na primeira semana, Dylan passou todos os dias dentro do quarto, por causa de uma crise que ele tinha pelo menos uma vez ao ano, que o impedia de sair. Talvez algo como esquizofrenia, ou um grau muito alto de autismo. Já na segunda e última semana, após sair da crise, Dylan saiu quase todos os dias, e conseguiu conhecer os principais pontos turísticos de Cork. No último dia de lazer, Dylan resolveu sair do hotel, que situava-se no centro da cidade, e foi a um penhasco, onde havia um castelo muito antigo. O lugar era realmente esplendoroso e calmo, o local recebia não mais que 100 visitantes por ano.
  Dylan ficara sentado naquele lugar por cinco horas seguidas, refletindo coisas que ele jamais pensaria que fossem possíveis. Uma dessas coisas supostamente impossíveis, era o reencontro com Julie. É, meu caro Dylan, como você é ingênuo! Olhe para trás:
   _ Meu Deus! Eu só posso estar sonhando! – Berrou Julie, indo em direção a Dylan, que ainda estava sentado no mesmo lugar.
  Dylan, com um olhar de susto, ficou bobo quando viu Julie ali. Ele levantou e correu para abraçar seu amor.
 Ei! Acorda Dylan, era só um sonho! Você dormiu aí, rapaz. Já está anoitecendo, hora de ir para o hotel! Sim, Dylan estava mais inconformado do que nunca, pois conseguiu chegar novamente perto de seu grande amor, e no último segundo, bem na hora do abraço, ele acordou e descobriu que tudo era apenas fantasia. Já no hotel, Dylan deitou rezando para que sonhasse com Julie novamente. Amanheceu, e ele acordou mais decepcionado ainda, pois não conseguira sonhar com Julie. Mas não há tempo para tristeza e afins, hoje é dia da inauguração da ópera, chega de folga.
  Chegou a grande hora do espetáculo, da grande inauguração, a ópera  está lotada. Dylan estava mais do que apenas nervoso, diferente dos outros músicos, que estavam super tranquilos. Ele não conseguia parar de tremer e não conseguia falar uma palavra sequer. Estava quase na hora do espetáculo, e Edgar estava preocupado com o estado de Dylan, pensou por um instante, que Dylan não iria conseguir tocar. Até que Dylan recebeu um bilhete com o título “para o pianista”, que dizia:
    
   “ Estou esperando uma apresentação sensacional, principalmente de sua parte. Espero que você seja capaz de despertar o sentimento que uma pessoa do passado conseguiu despertar em mim. Não sei quem és, mas saiba que haverá alguém na plateia com muita expectativa de sentir-se bem ouvindo você tocar. “
  
  Dylan, mal terminou de ler o bilhete, e já ficou muito mais calmo. Começou a pensar em Julie, e dessa vez ele estava certo que não era um sonho, e sim realidade, e que realidade! O músicos entraram no palco. Dylan sentou-se e disse para os colegas de orquestra:
 _ Pessoal, há uma mudança nos planos dessa noite... Ao invés de começarmos tocando Mozart, eu vou começar tocando uma composição de minha autoria. Vocês podem ficar apenas assistindo, e logo após tocamos Mozart e seguimos o que já estava combinado. Ok!?
Como Dylan era o patrão ali, todos os colegas concordaram. Dylan então fechou os olhos e respirou fundo, e a única imagem que lhe veio em mente foi o sorriso de Julie.
   Último sinal na grande ópera, está na hora. As cortinas abrem-se, e tudo está escuro. O silêncio da multidão é imediato. De repente, uma luz paira sobre o piano, e todos ouvirem a voz que diz:
   _ Sejam todos muito bem-vindos, essa noite é muito especial. E nada melhor que uma composição de amor para começar bem. Espero que sintam esse amor! Essa composição eu gosto de chamar de “Julie”.

terça-feira, setembro 07, 2010

Capítulo 6 - A Proposta

     Dois anos voaram com o vento, e Dylan permanecera em Dublin. Ainda arrependido por ter largado Julie chorando no quarto há dois anos atrás, Dylan não conseguia ter o próprio perdão. O rapaz alugou um apartamento minúsculo ao lado do restaurante onde conhecera Julie, ele conseguira um emprego como garçom no restaurante. Ele rezava todos os dias para que Julie aparecesse lá. Foram os dois anos mais doloridos da vida de Dylan.
     O rapaz chegou a um certo ponto de desistir de viver, de não acreditar mais em si mesmo. Ele perdeu as esperanças, e deixou de acreditar no destino. Pediu demissão do restaurante, e foi fazer o que ele realmente precisava, que era tocar piano. Dylan nunca teve problema em conseguir um emprego, seu carisma era absoluto, contagiante. O rapaz conseguiu um ótimo emprego na orquestra de uma ópera local. Ficou lá por três meses, ele foi a grande atração da ópera por muitas sessões seguidas. Com quase 24 anos de idade, Dylan já não pensava mais em ter uma família, ou sequer tentar. Ele não só era o pianista da orquestra, como também era zelador do local. Passava maior parte do seu dia isolado, tocando aquele piano triste, no palco principal.
     Num certo dia, Dylan recebeu um aviso do dono da ópera, dizendo que um senhor iria lá visitá-lo para fazer-lhe uma proposta. Lá estava Dylan, tocando sua mais bela composição, quando um velho homem aproximou-se dele lentamente, era o senhor de quem Dylan havia sido avisado. Dylan nem se deu conta da presença do homem e tocou sua composição até o fim, sendo aplaudido ao final:
    _ Bravo! Bravo! Em momento algum eu senti seus dedos nas teclas do piano, meu caro rapaz. Pude apenas sentir sua alma transbordando seus sentimentos. Não há mais gente como você nesse mundo.
Dylan ficou sem jeito, e nem olhou nos olhos do homem, apenas disse em um tom de voz baixo:
    _ O senhor que veio para fazer uma proposta?
O homem subiu no palco, com muita calma, encostou-se no piano, e disse:  
    _ Já vi que você é direto, rapaz. Sim, sou eu mesmo. Mas antes de lhe fazer a proposta, me conte de quem é essa bela canção que você acabou de tocar, pois não lembro de ter ouvindo-a antes, qual é o nome?
    _ Eu mesmo compus essa canção, e dei o nome de Julie. – Disse Dylan com um olhar distante.
O velho homem, sem muitas delongas, perguntou:
    _ Quem é Julie? Deve ser alguém muito especial, não?
Dylan direcionou seu olhar direto na testa do homem e disse:
    _ Não sei mais se é tão especial assim. Ela foi a mulher que sumiu e nem deu notícias, mas como ela poderia dar notícias? Se o idiota aqui fugiu dela na hora em que ela mais precisava. Ela me fez perder as esperanças, me fez perder a vontade de viver. Mas não foi culpa dela, eu que sou muito imaturo e complicado. Essa canção com o nome dela, não demonstra um estilhaço sequer desse coração aqui no meu peito, moído pelo arrependimento.
O senhor sem jeito, mas com uma carga de sabedoria superior a do jovem rapaz, disse:
    _ Olha meu rapaz, você pode achar que tudo está perdido, todos são capazes de achar isso. Mas eu quero ver se você tem a coragem e a capacidade de reerguer-se e procurar seu tesouro perdido. Todos nós, humanos, somos sentimentais demais, o que é ótimo, mas saiba usar seus sentimentos! Lembre-se, nada está perdido. E acho que devo lhe ensinar algo: A esperança é imortal.
Dylan com lágrimas secas pela dor da consciência, insistiu:
    _ Qual é a proposta que o senhor tem? Diga logo, eu preciso arrumar as coisas por aqui, para a apresentação de hoje.
O homem sorriu tragando seu cachimbo, e falou:
    _ Bom, primeiramente, prazer! Meu nome é Edgar. Já sei que o seu é Dylan. Pois então, meu rapaz... Minha proposta exige coragem e capacidade, exige um controle dos sentimentos, mas penso que você já está pensando melhor sobre isso. No entanto, a proposta é simples:  Eu estou convidado você para montar sua própria orquestra, com músicos da melhor qualidade. Ou seja, você entra com seu dom de tocar, e eu entro com o dinheiro. Mas esse negócio é em Cork, um pouco distante daqui. Mas não precisa responder agora, vou dar um tempo para você pensar. Voltarei daqui quatro dias, no mesmo horário.
O Edgar despediu-se de Dylan e foi embora. Os quatro dias passaram super rápido, e lá estavam frente a frente, Dylan e o velho homem:
    _ Então meu rapaz, o que você decidiu? 

domingo, setembro 05, 2010

Capítulo 5 - O Desencontro

     Após ter dito tudo aquilo, Dylan estava esperando uma reação negativa da parte de Julie. Ele sabia que havia errado em abrir-se com a garota no mesmo dia em que a conhecera, e sabia também que ela não acreditaria nele, sendo que ela nem o conhecia direito. Então Dylan disse a ela que iria pegar um copo d’água com açucar, e saiu do quarto. A garota, ainda com lágrima nos olhos, percebeu que Dylan estava demorando muito, e foi  à cozinha para ver o que estava acontecendo. Dylan não estava mais na casa. Sim, o rapaz sempre foi muito curioso, mas dessa vez ele não estava preparado para saber o que iria acontecer, o que Julie iria dizer a ele.
    Quatro dias se passaram, e Julie não tinha notícias de Dylan. Ela procurou o rapaz por todos os lugares, mas não teve sucesso. Em certa noite, Julie estava no quarto, lendo um livro sobre Psicologia Aplicada, e parou na seguinte frase: “Não deixe que o silêncio predomine, saiba como lidar com o paciente, sempre continuamente...”. Foi aí que ela percebeu o que havia feito de errado para Dylan sumir daquele jeito. Ela  virou para o espelho ao lado de sua cama, e começou a falar para si mesma:
    _ Sua burra! Idiota! Como você pode chorar tanto e não dizer que sentia o mesmo por ele? Como você foi capaz de fazer isso? Eu sei que ele não era um paciente, mas ninguém faz algo tão errado para merecer o silêncio alheio! Não procure mais por ele, agora aprenda a conviver com o seu erro.
    Julie jogou o livro da Psicologia Aplicada no espelho - fazendo-o em pedaços - e começou a chorar descontroladamente. Fora a última vez em que chorara por Dylan, ela estava disposta a esquecer o rapaz, mesmo que isso fosse uma missão quase que impossível.
    Já Dylan, bom, esse estava planejando voltar para Londres, e esquecer que um dia conhecera uma garota chamada Julie, naquela não tão mais maravilhosa capital, chamado Irlanda. Ele ainda tinha algumas economias, e conseguiu  comprar a passagem de volta à Londres. Nesses quatro dias em Dublin, Dylan estava ficando num pensionato ao oeste da capital. Tudo pronto para viajar, mala arrumada, pensionato pago, próxima parada: aeroporto. Mas é óbvio que Dylan conseguira  perder a passagem. O voo já estava saindo e Dylan ainda alí no portão de embarque, desesperado, procurando a maldita passagem por toda a mala. Pois é, acho que aquele avião lá decolando era o seu, meu caro Dylan. Sem mais economias e paciência, o rapaz resolve sair do aeroporto, e foi para a casa de Julie. Sim, Dylan costumava confundir o sentimento de raiva, com o sentimento de coragem.  Pobre rapaz.
    Dylan chegou na casa de Julie ao anoitecer, e tocou a campainha, super nervoso. Ninguém atendeu, então ele tocou mais uma vez, e nada. Julie vendera a casa e as mobílias, inclusive o piano, e fora morar em Cork. Pois é, Julie contou para Dylan que fazia faculdade de Psicologia, só não havia dito que estava a duas aulas de terminar sua formação, e que conseguira um estágio na cidade de Cork, distante de Dublin. Mas Dylan só descobriu dois dias depois, quando viu os novos inquilinos chegando na casa. Dylan estava com muita vontade de perguntar aos inquilinos o paradeiro de Julie, mas não teve coragem. Dylan só ficara sabendo que ela não morava mais ali, apenas isso.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Capítulo 4 - Sexto Sentido

   Já era noite, muita neve e vento. A mãe de Julie a deixara uma casa enorme como herança. Enquanto Dylan esperava Julie tomar banho, ficou andando pela sala de visitas, observando os detalhes. Ainda muito curioso, ele começou a entrar nos cômodos da casa, até que chegou num quarto imenso e esbugalhou os olhos de forma até que assustadora. Claro, havia um piano ali, branco e reluzente. Óbvio que Dylan não pode conter-se, sentou-se, respirou fundo e começou a tocar com muito sentimento. Quando ele está tocando piano, o tempo passa sem que ele perceba. Dylan é capaz de passar mais de um dia tocando piano sem parar. Enfim, ele parou de tocar, pois ouvira alguém correndo pelo corredor em direção ao quarto em que estava, mas era apenas Julie, com um roupão. Ela estava assustada com o que escutara do banheiro. Dylan logo disse:
     _ Desculpa. Acho que eu não deveria ter encostado no piano, ou sequer ter saído da sala. Me desculpa.
Julie começou a rir incessantemente, e com uma face de surpresa, indagou:
    _ Como você fez isso? Inacreditável! Nunca ouvi algo tão bonito em toda a minha vida. Desde quando você toca piano? Você que compôs isso?
 Inúmeras perguntas surgiram de Julie, e Dylan sem problema algum, respondeu a todas. Julie pediu a Dylan para que fosse à jantar com ela, e depois voltasse ao quarto para mostrar várias de suas composições a ela. Dylan aceitou, não dava para saber qual deles estava mais empolgado com tudo aquilo. Enquanto jantavam, Julie explicou que o piano foi um presente de sua mãe, e que ela tocara o instrumento apenas em momentos de muita tristeza e decepção, mas que não era nada de mais, disse que nem sabia tocar muito. Ótimo, terminaram de jantar e foram ao quarto de Julie, sim, era lá que o piano estava. Julie mal esperou Dylan se ajeitar e logo pediu, sorrindo:
    _ Toca suas composiçõs, quero ouvir todas. Ah, e me conta o que você sente quando compõe. Desculpa, sou super curiosa.
    Dylan disse que ela não precisava se desculpar, pois ele era curioso também. O rapaz começou a tocar uma de suas primeiras composições, que ele compusera ainda no orfanato. Julie simplesmente adorou a composição, e foi pedindo mais e mais. Ela conseguiu fazer com que Dylan mostrasse quase todas suas composições já feitas, e explicasse o motivo de cada uma. Mas Dylan sem coragem, não mostrou a que ele tinha feito para ela, no restaurante. Sim, o rapaz tinha o dom, ele conseguia visualizar todas as notas em sua cabeça, mesmo sem tocá-las, algo realmente surpreendente.
Foi quando Julie disse:
   _ Acho bom ir dormir agora, já está tarde demais. E amanhã eu tenho aula cedo. Eu não te falei, mas faço faculdade de Psicologia.
 Que Dylan sentiu a necessidade mostrar a composição a ela:
   _ Que demais isso. Eu quero muito fazer ir para uma faculdade. É está tarde mesmo, mas eu ainda não te mostrei minha última composição. Posso mostrar agora?
   _ Nossa, claro! Você havia dito que tinha mostrado todas, não? Quando você compôs essa? – Disse Julie.
Dylan explicou seu dom de compor sem precisar ter um piano por perto, e confessou que compôs no exato momento em que observou Julie chorando no restaurante. Confessou também que estava nervoso:
   _ Bom, saiba que eu ainda não toquei essa última composição, e estou muito nervoso! Mas acho tudo vai sair bem. Espero!
    Então o rapaz começou a tocar a composição com todo seu coração, sua alma. Julie começou a chorar e não tinha palavras para expressar o que estava sentindo naquele instante. Dylan nem percebeu o choro da garota e continuou tocando, e só depois de ter terminado que ele viu aqueles belos olhos cheios de lágrimas. Julie conseguiu perguntar apenas uma coisa:
   _ Você diz que sente algo antes de compor, me diz o que você sentiu para poder compor isso. Não minta, por favor.
    Dylan com seu autismo, desviou os olhos de Julie e ficou paralisado diante do piano, da mesma maneira que ficara quando conhecera o piano no orfanato. Julie ainda chorando, estava esperando pelo menos, uma palavra sair da boca de Dylan. E demorou muito, até que ele saiu daquele estado catatônico e aprofundou o olhar nos lábios trêmulos de Julie:
   _ Já senti muito nessa vida, sentimentos que ninguém mas foi capaz de sentir. Mas quando eu te vi naquele restaurante, foi como se tudo o que eu já havia sentido, fosse normal. Basta olhar para alguém para que possamos enxergar, basta tocar alguém para que possamos sentir, e assim funciona todos os sentidos. Descobri no restaurante, que há em mim o sexto sentido, é meu coração. Até agora eu não sei o que dizer. O que eu estou sentindo por você é algo inexplicável. Amor é muito pouco pra expressar tudo isso. Me desculpa, eu sei que mal nos conhecemos, e acredite, eu nunca diria isso para alguém, além de você. Eu sou um pouco autista, tenho problemas para me relacionar, para me expressar. Mas tenho certeza que mesmo uma pessoa ‘normal’ não seria capaz de expressar o sexto sentido. Acho melhor eu procurar um hotel, estou vendo que você não para de chorar, você está passando por esse momento difícil, e eu aqui falando coisas sem sentido.
   Julie ainda estava chorando. Ela estava chorando demais, como nunca havia chorado em toda sua vida, nem sequer na morte de sua própria mãe. Dylan estava super assustado, não sabia se abraçava ela ou se saia do quarto e ia embora.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Capítulo 3 - Mudança Radical Em Dobro

  Dylan conseguira encontrar um emprego numa escola de música, como professor de piano. E conseguira alugar um apartamento após ter ficado uma semana nas ruas de Londres, sem ter um lugar para dormir. Depois de tantos anos dentro de um orfanato, Dylan ficou meio problemático, ainda autista e traumatizado. Tudo lá fora era demais pra ele. O rapaz adorava passar horas observando as paisagens, mas seu único amor era o piano, nada mais.
   Em 2002, com 19 anos, Dylan passa a ir ao psicólogo, devido aos flashes e barulhos que ainda lhe tiram o sono. Cura-se do trauma causado pela morte da família, após 1 ano de tratamento com medicamentos. Porém, ainda continua sendo o mesmo Dylan de sempre, autista e meigo.
  Dylan criou uma rotina diária, muito comum. Acordava cedo, passava no mesmo Café de sempre, depois e ia à escola de música. Ele costumava chegar na escola três horas antes, para poder ficar tocando  piano e compondo algumas canções. Dylan sem dúvidas foi o melhor professor que aquela escola já teve. Sim, já teve, pois um dia a rotina acabou. O jovem rapaz, agora com 21 anos de idade, resolveu mudar de vida. Após 2 anos guardando um parte do dinheiro que ganhara como professor, Dylan decidiu viajar, e já tinha um lugar em especial. Dylan criou uma relação de amor com esse lugar desde o primeiro dia em que viu na TV. Arrumou uma pequena mala e partiu, e nem foi difícil se despedir de Londres, uma vez que Dylan não havia muitas amizades ou qualquer coisa que o prendesse de alguma forma.
     Inverno rígido na Irlanda, a chegada de Dylan à mais bela capital do mundo. Sim, Dublin fora o destino escolhido pelo rapaz. Mas um pequeno detalhe que deveria preocupar Dylan, tomou conta da situação. O detalhe era simples, muito simples mesmo, ele não tinha ideia nenhuma de onde ir ou o que fazer em Dublin, coisa mínima para se pensar. Mas seu coração estava de bem, feliz por estar naquele lugar frio e acolhedor. Dylan ficara três horas sentado no aeroporto pensando no que fazer. Então, Dylan resolveu pegar um táxi. Pediu ao motorista para que o deixasse no centro de Dublin. Dylan tinha em mente que, estando no centro, tudo ficaria mais muito fácil.  Não, as coisas estavam longe de dar certo naquela tarde. Bom, chegando no centro, Dylan consegue ser capaz de escorregar na neve e torcer o pé esquerdo. Tranquilo, até que é normal. Lá vai o rapaz mancando até uma farmácia, onde comprara um medicamento indicado pelo atendende. Claro que Dylan é alérgico justamente a esse medicamento,  e desmaia no meio da rua. O rapaz acordara somente na manhã seguinte, assustado e com muita dor de cabeça.
     _ Alguém me ajuda aqui, por favor! – Gritou Dylan.
Logo apareceu uma enfermeira, lindíssima, dizendo:
    _ Calma, aí, James! Você teve uma reação alérgica, acreditamos que o motivo seja o medicamento que encontramos na sua jaqueta.
     _ Pode me chamar de Dylan. Reação alérgica? Mas eu já posso ir embora? – Disse o rapaz, um pouco mais calmo.
    _Sim, Dylan. Mas nunca mais tome esse remédio, e evite beber álcool nos próximos três dias. Ah, e deixe o seu pé enfaixado por mais uns 4 dias. – Disse a simpática enfermeira.
 Simples assim. Dylan já estava liberado. Com um mala na mão, duas faixas no pé esquerdo, e uma cabeça que ainda estava doendo demais. Até aqui, Dylan tem dois amores: o piano, e a Irlanda. Mas são amores que consomem Dylan em apenas alguns aspectos. O piano consome sua inspiração, percepção. Já a Irlanda consome sua vontade de ser livre, seu bucolismo. Só que Dylan pode esperar! Ele irá conhecer seu primeiro amor, e descobrir que piano e irlanda são apenas paixões. Será consumido por completo.
  Fome! Muita fome levou Dylan a um restaurante ao lado do hospital, situado no sul de Dublin. Então lá estava ele,  comendo, e ainda pensando no que iria fazer, quando avistou uma garota chorando, na mesa ao lado, sozinha. Dylan conseguiu se apaixonar imediatamente, mesmo que por uma face vermelha e cheia de lágrimas pesadas. Mas o rapaz não enxergara apenas um rosto sofredor, enxergara também, um coração puro, refletido através de um olhar latente. Ele esqueceu seu autismo, e foi imediatamente falar com a garota:
   _ Po... po-po... posso sent- t- tar aqui?
É Dylan, você só não esqueceu do nervosismo. Mas foi um ato legal, você se saiu muito bem. A garota meio acanhada, disse que sim, ele poderia sentar. Então Dylan sentou-se e logo  perguntou:
    _ Porq-q-que você es-s-stá assim?
    _ Um gago tentando ajudar – Disse a garota rindo em lágrimas.
   _ Eu não so-sou gago. Só est-tou um pouco ner-n-nervoso. – Retrucou Dylan, mais nervoso ainda.
Foram 15 minutos de conversa entre os dois, o suficiente para Dylan entender o motivo das lágrimas da garota, e descobrir o nome dela. Dylan super calmo ao final, disse:
    _ Quer que eu vá contigo ao cemitério para levar flores à sua mãe, Julie ? Acho que você precisa de alguém ao seu lado, já que você diz não ter mais ninguém.
Julie, que havia simpatizado com o rapaz, aceitou tranquilamente. É claro que esperava-se mais lágrima da garota ao estar em frente ao túmulo da própria mãe. Mas não, foi a vez de Dylan, ele começou a soluçar de tanto chorar. Julie, super confusa e tensa, perguntou:
    _ Calma, Dylan. O que está havendo? Você também perdeu sua mãe?
    _ Não, perdi meus pais e minhas irmãs, de uma única vez, em um acidente de carro. Fui o único sobrevivente. – Disse Dylan, aos prantos, já nos braços Julie.
 A garota não sabia o que dizer a Dylan, e perguntou se fazia tempo que ele tinha perdido a família, e se eles estariam no mesmo cemitério. Foi então que o rapaz começou a explicar tudo nos mínimos detalhes sobre ele ser de Londres e tudo mais. Mas nem deu tempo de Dylan terminar de explicar, e Julie disse que precisava ir embora:
     _ Desculpa. Eu preciso ir embora, Dylan. É muito triste o que aconteceu contigo. Mas do mesmo modo que você me ajudou, eu posso te ajudar. Pode contar comigo, eu gostei muito de você! Me dá o número do seu celular ou da sua casa, aí podemos marcar de sair qualquer dia desses. O que você acha?
Dylan muito sem jeito, diz:
    _ Pois é! Eu não tenho celular, e não tenho número residencial. É que eu cheguei em Dublin ontem, e não tive tempo de encontrar um lugar. Passei a noite no hospital, ah, uma longa história.
    _ Não, isso está errado, cara. Vamos para a minha casa. Você pode passar a noite lá. E vou logo dizendo, odeio ouvir a palavra “não”.  – Disse Julie sorrindo e convicta.
  O rapaz não foi capaz de pensar no assunto na oferta, que sua língua já havia largado um imenso “sim”. Então foram os dois papeando até a casa de Julie. Já era fim de tarde, e muitas coisas aconteceriam naquela noite.